Como ler a cotação do cacau na bolsa de Nova York
A cotação do cacau na bolsa de Nova York é um informação que pode ser confusa, principalmente por não saber o que é essencial. Entenda!
Para quem produz cacau, acompanhar o preço da arroba ou da tonelada no mercado regional é importante. Mas existe outra referência que influencia diretamente a formação dos preços: a cotação do cacau na bolsa de Nova York.
É comum encontrar números como US$ 5.000, US$ 6.000 ou US$ 7.000 por tonelada e surgir a dúvida: esse é o valor que o produtor brasileiro vai receber? A resposta é não.
A cotação negociada em Nova York é uma referência internacional. Para chegar ao preço efetivamente praticado no mercado brasileiro, entram na conta fatores como câmbio, qualidade, localização, custos de comercialização, prêmios ou descontos e condições de oferta e demanda.
Entender essa conta ajuda o produtor a acompanhar o mercado com mais clareza e negociar melhor sua produção. Continue a leitura porque vamos te explicar melhor!
O que é a cotação do cacau em Nova York?
O contrato de cacau negociado na ICE Futures U.S. é considerado uma referência mundial para o mercado de cacau. O contrato tem o símbolo CC, representa 10 toneladas métricas e é cotado em dólares por tonelada. A liquidação do contrato é física.
Então, quando você vê uma cotação como “US$ 6.000 por tonelada”, significa que o mercado futuro está negociando o contrato com uma referência de US$ 6.000 para cada tonelada métrica de cacau.
Como cada contrato representa 10 toneladas, um contrato nessa cotação equivale a US$ 60.000 em valor nocional.
Mas atenção: isso não quer dizer que um produtor brasileiro tenha US$ 60 mil para receber por cada contrato, ok? O mercado futuro e o preço recebido pelo produtor são coisas diferentes.
Por que a bolsa de Nova York influencia o preço no Brasil?
O cacau é uma commodity negociada internacionalmente. Por isso, seus preços são influenciados pelo equilíbrio entre oferta e demanda mundial.
A Ceplac explica que, para o mercado brasileiro, a Bolsa de Nova York é utilizada como referência para a formação dos preços do cacau. O órgão também destaca que as cotações internacionais estão sujeitas às oscilações provocadas pelas condições do mercado mundial.
Ou seja: uma quebra de safra em grandes países produtores, alterações nos estoques, condições climáticas ou mudanças no consumo podem movimentar a cotação internacional e, consequentemente, afetar as referências utilizadas no mercado brasileiro.
Mas existe um detalhe importante: a cotação internacional não chega integralmente ao produtor.
Como transformar a cotação de Nova York em uma referência para o produtor?
Imagine que o cacau esteja cotado a US$ 6.000/t. O primeiro passo é considerar o câmbio. Assim, se o dólar estiver a R$ 5,50, por exemplo:
US$ 6.000 × R$ 5,50 = R$ 33.000/t
O resultado é que a cotação internacional equivaleria inicialmente a R$33 mil por tonelada. Mas calma! Essa ainda não é necessariamente a remuneração do produtor, viu?
Dependendo da operação, podem existir custos logísticos, diferenciais de qualidade, prêmio ou desconto, despesas de comercialização e outros ajustes.
Uma apresentação da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), disponibilizada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, apresenta um exemplo de formação do preço do cacau brasileiro em 5 de abril de 2023.
No cálculo, a cotação internacional de US$ 2.897 por tonelada é acrescida de um prêmio de US$ 80 por tonelada pela origem brasileira e, em seguida, sofre uma dedução de US$ 400 por tonelada referente ao custo para levar o produto até os armazéns credenciados da Bolsa de Nova York. O valor resultante é de US$ 2.577 por tonelada. Serviços e Informações do Brasil
A lógica pode ser resumida assim:
Cotação de Nova York + prêmio/diferencial − custos = referência para o cacau brasileiro
Depois disso, o câmbio converte o valor para reais.
E onde entra a qualidade do cacau?
Entra bastante. Afinal, a bolsa estabelece padrões para o produto que pode ser entregue dentro do contrato, tanto que a própria ICE Future U.S possui regras de classificação relacionadas a origem, condição e grau do cacau.
No mercado físico, porém, a qualidade também pode influenciar o preço negociado entre produtor e comprador. Um cacau bem fermentado, corretamente seco e dentro dos padrões exigidos pode ter condições comerciais diferentes de um lote que apresenta excesso de umidade, defeitos ou problemas de fermentação.
Por isso, acompanhar a bolsa é importante, mas não basta olhar apenas para o número da tela: o produtor precisa entender qual é o preço de referência para o seu cacau.
O que são os contratos de março, maio, julho, setembro e dezembro?
Quando você acompanha a cotação, provavelmente verá diferentes vencimentos, o que acontece porque o mercado futuro trabalha com contratos para diferentes meses de entrega.
Na ICE, os contratos regulares de cacau têm vencimentos em março, maio, julho, setembro e dezembro. Por isso, duas cotações de cacau podem apresentar valores diferentes dependendo do vencimento analisado.
Por exemplo:
Cacau maio: US$ 5.900/t
Cacau julho: US$ 6.000/t
Contudo, não significa necessariamente que uma cotação esteja “errada”. São contratos referentes a momentos diferentes no mercado futuro. Assim, ao acompanhar os preços, é importante observar sempre qual contrato está sendo utilizado como referência.
O que faz o preço do cacau subir ou cair?
A cotação do cacau responde a uma combinação de fatores:
Oferta mundial
Se as principais regiões produtoras enfrentam problemas climáticos, doenças ou queda de produtividade, a expectativa de menor oferta pode pressionar os preços para cima.
Estoques
Os estoques disponíveis também influenciam a percepção de equilíbrio entre oferta e demanda.
Consumo
A demanda das indústrias de chocolate e derivados interfere diretamente no mercado. Dessa forma, quando a procura cresce em relação à oferta disponível, o mercado pode reagir.
Clima
O cacau é uma cultura extremamente dependente das condições de produção. Portanto, alterações climáticas em grandes regiões produtoras podem gerar movimentos importantes na cotação.
Câmbio
Para o produtor brasileiro, existe ainda uma segunda variável fundamental: o dólar.
A Ceplac já demonstrou, em estudos sobre o mercado de cacau, que tanto a cotação internacional quanto a taxa de câmbio influenciam os preços domésticos. Em determinadas situações, uma alta do cacau em Nova York pode ser parcialmente compensada por uma valorização do real frente ao dólar.
Cotação do cacau em Nova York é igual ao preço do produtor?
Não. E essa talvez seja a principal informação para quem acompanha o mercado.
Se a bolsa indicar US$ 6.000/t, não significa que o produtor brasileiro receberá automaticamente esse valor convertido para reais. Existe uma cadeia entre a bolsa e a propriedade.
O preço final pode considerar:
cotação internacional;
vencimento utilizado como referência;
dólar;
prêmio ou desconto;
qualidade das amêndoas;
custos logísticos;
transporte;
comercialização;
localização;
condições negociadas com o comprador.
Por isso, comparar diretamente a cotação da bolsa com o preço pago na fazenda pode gerar uma conclusão equivocada.
Como acompanhar a cotação do cacau de forma inteligente?
Mais importante do que olhar apenas o número do dia é acompanhar o contexto. Então, uma boa rotina é observar:
1. A cotação internacional: qual é o valor do contrato de referência?
2. O vencimento: qual mês está sendo negociado?
3. O dólar: como está o câmbio?
4. O mercado físico: quanto compradores estão pagando na sua região?
5. A qualidade: existem descontos ou prêmios relacionados ao seu lote?
6. A tendência: o mercado está subindo ou caindo em relação aos últimos dias e semanas?
Órgãos estaduais também disponibilizam séries de preços que ajudam a comparar a referência internacional com os valores praticados regionalmente. A Secretaria da Agricultura da Bahia, por exemplo, publica cotações do cacau futuro de Nova York e preços de cacau em praças produtoras.